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19 de maio de 2016

In the Netherlands, "we are all healthy until proven otherwise"

Este artigo é já de Julho do ano passado e tem estado aqui em rascunho há espera que eu lhe pegasse... e há espera de eu conseguir escrever qualquer coisa de jeito e não desatasse aos gritos... Pois bem... o tempo foi passando e, agora comigo grávida a ser acompanhada na Holanda, não consigo dizer nada mais nada menos do que... bullshit!!!


"Em Portugal, mais de 1,2 milhões de pessoas não têm médico de família. Na Holanda, todos estão cobertos pelo médico de família, onde não há taxas moderadoras. Os cuidados primários são considerados um pilar e o segredo para manter a população saudável a custos controlados.
(...) Como todos os residentes na Holanda, tiveram de subscrever o seguro básico privado obrigatório, que custa cerca de 100 euros por mês, independentemente dos rendimentos. Destina-se a todos os que têm mais de 18 anos. As filhas, Adriana, de oito anos, e Alicia, com dois meses feitos no final de Junho, estão incluídas no seguro dos pais sem custos adicionais. Mas há ainda outros descontos para quem trabalha por conta própria ou de outrem. Os empregadores descontam uma percentagem por cada colaborador (cerca de 8% do salário) e o próprio contribui também com uma percentagem de cerca de 12,5% destinada ao equivalente à segurança social, com parte destas verbas a serem encaminhadas para a saúde.
(...) Isto porque, além do prémio mensal, os cidadãos têm também de pagar os primeiros 350 euros anuais de despesas de saúde, que não estão isentas de pagamento como forma de sensibilização para o uso. (...) Os médicos de família recebem um valor fixo por cada doente e mais uma verba por cada consulta. (...)
O pacote básico do seguro inclui os serviços dos médicos de família, parteiras e dos médicos de outras especialidades e hospitais, desde que o doente seja referenciado pelos cuidados primários e ainda comparticipação de medicamentos prescritos. No caso dos serviços hospitalares e de alguns medicamentos e exames, os primeiros 350 euros ficam do lado do doente, mas para o médico de família e cuidados para grávidas e crianças não há qualquer co-pagamento. O dentista apenas está garantido até aos 18 anos e depois dos 65, pelo que muitas pessoas contratam uma cobertura adicional para medicina dentária que regra geral ronda os 20 euros. O transporte de doentes em táxis e ambulâncias, quando considerado necessário, também está coberto, assim como outros serviços como dietista ou terapeuta da fala. Apenas algumas sessões de fisioterapia são pagas, com o doente a ter de assegurar o custo das primeiras dez.(...)
(...) Mesmo com as diferenças, a mortalidade infantil na Holanda é apenas ligeiramente superior à portuguesa (...) As mudanças no pós-parto também são abismais. Mesmo quem tem o bebé no hospital, excepto nas cesarianas, costuma ter alta no próprio dia e para trás deixa quartos individuais com banheiras para fazer dilatação e bolas de pilates. Quando a família regressa a casa recebe a visita de uma enfermeira que vê se está tudo bem, faz o teste do pezinho, dá as primeiras vacinas e entrega um boletim com as consultas agendadas até aos quatro anos no centro destinado a crianças e que funciona num sítio distinto do consultório particular do médico de família. A partir dessa idade há algumas consultas asseguradas nas escolas. Nesse centro há os chamados médicos da infância, uma especialidade que não tem equivalente em Portugal. Os pediatras são reservados para os casos mais graves.
Lígia e Peter destacam também o papel da “kraamzorg”, uma profissional com formação nesta nova fase da família e que durante a primeira semana está na casa do casal. Ajuda com várias tarefas: de conselhos sobre amamentação à limpeza da casa, refeições ligeiras ou mesmo entreter o bebé ou filhos mais velhos. Tudo isto está incluído no seguro básico obrigatório e reforçam que a “dispersão” funciona de forma “integrada”.
(...) As consultas com o médico de família duram apenas 10 minutos, o que é motivo de alguma insatisfação. Mas o médico assegura que o contacto próximo com os utentes e a facilidade com que se agendam consultas permite que este tempo chegue. (...
)"


O tema é bastante interessante e muito polémico entre a comunidade portuguesa por cá. Se há quem ache que isto é tudo "lindo e maravilhoso", também há aqueles que já passaram as "passinhas do Algarve" e acabaram por se meter num avião para serem tratados em Portugal...

As estatísticas valem o que valem... e eu que trabalhei com elas sei o que valem, para mim muito pouco! Até porque num grupo de dois, um é 50%, e por isso para além das estatísticas gostava que falassem em números reais... 

A dita jornalista entrou rm contacto com várias pessoas cá (tenho ideia que até o meu Bruno falou com ela) mas a senhora procurava apenas "experiências positivas em relação ao sistema de saúde da Holanda!" Oram digam lá que não é de ficar com um pé atrás?!?!?! Experiências boas e experiências más, bons e maus profissionais, esses existem em todos os lados, em todos os países, por uma razão simples... Somos humanos!!! Agora daí a dizer que a SNS em Portugal é pior que aqui vai um passo grande, muito muito grande. A saúde não é gratuita em Portugal, mas ainda assim vejamos:
  • sempre fiz planeamento familiar com a minha médica e enfermeira de família, fazendo todos os anos exames ginecológicos de controlo anuais  e tendo direito a pílula todos os meses - serviço GRATUITO;
  • tive problemas de colesterol e fiz durante um bom par de anos análises regulares e consultas de acompanhamento de peso, também no centro de saúde GRATUITO;
  • fiz todo o processo de gravidez acompanhado pela médica e enfermeira de família, e fiz 3 consultas com a obstetra no hospital, desde análises a ecografias, a todos os exames (sendo que sei que alguns deles aqui não se fazem e fazendo são caríssimos, como por exemplo o exame da toxoplasmose, diabetes gestacionais, streptococcus B, rastreio combinado do primeiro trimestre da gravidez, entre outros...), o parto acabou por evoluir para cesariana (estive 5 dias no hospital porque perdi muito sangue e fiquei anémica) e foi GRATUITO;
  • fiz curso de preparação para o parto e de pós-parto no centro de saúde e foi GRATUITO;
  • as consultas de pediatria de rotina, enquanto não viemos para a Holanda, e vacinas para o Sebastião GRATUITO
  • em miúda fui atleta federada, pelo que tinha que fazer vários exames de chek up todos os anos, GRATUITO;
  • a minha bisavó teve cancro, e lembro perfeitamente de a acompanhar durante vários anos no Hospital da Universidade de Coimbra, e nunca lhe foi cobrado nada... 
O que na verdade não posso discutir, é que infelizmente a eficácia do SNS de saúde varia imenso de cidade para cidade, de concelho para concelho, e isso sim, me parece um factor pelo qual se deve lutar para melhorar... Se aqui nunca fiquei há espera da consulta? No hospital já mais de 1h, o centro das crianças já mais de meia... por isso nem vejo diferença. Se acho que são muito mais atenciosos aqui com as crianças, sim claro, isso não vou discutir. 

Apesar de não ter qualquer reclamação desde que estamos cá com o pequenote, já de mim não posso dizer o mesmo... Depois de 3 semanas de cama, sem força já para me vestir, a respirar muito mal, a tossir sangue, fui ao médico que me disse sem qualquer tipo de exame médico nem me viu a garganta, nem me auscultou os pulmões, que o meu problema era "ansiedade e que devia de fazer caminhadas!". Pedi-lhe para me ver a garganta (uma vez que não tenho amígdalas e normalmente fico com faringites...), a resposta foi que o podia fazer mas que isso não iria alterar o seu diagnóstico. Esperei mais uma semana e fui ao médico de família. A médica que lá estava pediu-me desculpa, que já devia ter sido tratada à mais tempo... Caramba, são mais de 100€ por mês, mais os 375€ por ano de franquia... 

Portanto como já disse, maus e bons profissionais há em todo o lado. Temos casos de amigos chegados em que houve graves e sérios problemas de negligência médica com essa história do paracetamol... sendo que o mais grave de todos que me lembro agora, foi o de uma criança que lhe foi sendo aconselhado paracetamol porque era só uma constipação e nisto passou-se mais de 2/3 meses até que o pai se passou literalmente e exigiu ser visto num hospital. O final não foi de todo feliz, a criança tinha um tumor, e acabou por perder a visão de um olho... Enfim...

Ler o artigo enquanto um artigo de opinião, parece-me lindamente. Mais do que isso, peço desculpa mas não. Estamos cá por vontade própria, gosto muito de aqui estar, mas tal como muitos outros portugueses que aqui estão, aprendi a dar mais valor ao meu Portugal. Se lá há coisas más??? Muitas, muitas mesmo e por isso estamos aqui, a saúde essa, no meu entender, não é definitivamente uma delas.

1 comentário:

Bruno BaKano disse...

Disseste bem que o objectivo era mostrar as coisas positivas. Eu falei com a jornalista antes, nós estávamos para o fim da lista por termos pouca experiência própria com a saúde aqui (e felizmente que assim é) mas eu alertei que haviam opiniões muito distintas, com pessoas que detestavam e outras adoravam por isso o ideal era obter um apanhado.
Mas ela só falou dos "bons" casos.

É o problema de se fazer artigos ou estudos quando o resultado final já está estipulado, que neste caso era dizer que aqui na Holanda é tudo melhor.

É que ainda por cima qd a saúde na Holanda é classificada como a melhor da Europa nos últimos 2 anos, fica dificil fazer qq mensagem que alerte para as coisas menos positivas (ou piores) daqui...